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Riscos determinam uso de artes marciais em enfrentamento real

O treinamento de artes marciais como atividade física ou na preparação para campeonatos acontece em condições controladas e previsíveis. Por mais duro que seja o treinamento ou o adversário em um combate, os riscos e objetivos são sempre conhecidos e calculados. Quando se fala em uma situação de confronto real surge a questão sobre até que ponto a habilidade adquirida com essa experiência pode ser útil, afinal o fracasso em uma situação dessas pode não significar uma derrota, mas a perda da própria vida.

Não existem estatísticas sobre as circunstâncias ou sobre o que aconteceu com praticantes de artes marciais que se viram como vítimas de um assaltante e optaram por reagir. Há registros de tentativas bem sucedidas e de outras que terminaram em tragédia. Na Escola de Educação Física da Polícia Militar do Estado de São Paulo, onde é feito o treinamento dos soldados, o comando da entidade esclarece que a decisão de reagir diante da abordagem de criminosos é desaconselhável, mesmo que a vítima domine técnicas de artes marciais e se considere em condições de dominar o bandido.

Para a Polícia Militar, todos os aspectos envolvidos em situações como essa se apresentam desfavoráveis à vítima, sobretudo, quando a abordagem acontece com arma de fogo. De acordo com a PM, a maioria dos criminosos, que age aparentemente só, conta com a companhia de um comparsa disposto a matar quem esboça uma reação. Os próprios policiais recebem orientação para evitar ações individuais e sempre solicitar apoio para atuarem em superioridade numérica. Para qualquer cidadão, a polícia recomenda os cuidados tradicionais de prevenção como atenção redobrada em semáforos, evitar locais ermos, suspeitar de movimentação incomum de estranhos, etc. (dicas da Polícia).

Prevenção
Para Ricardo Nakayama, praticante de artes marciais há 30 anos e professor e consultor de treinamento de defesa pessoal, o comportamento preventivo deve ser encarado como a tática mais importante contra a ação de delinqüentes. “Muitas vezes as pessoas se descuidam e agem como se estivessem imunes à abordagem de bandidos” - comenta. Ele afirma que, desde que se tome cuidado para o medo não se transformar em doença, “o correto seria agirmos como se fosse acontecer conosco a qualquer momento.”

Segundo o instrutor, quando a prevenção não é suficiente e nos vemos diante de um assaltante o objetivo mais importante passa a ser nossa sobrevivência, algo que devemos buscar do modo que envolva o menor risco, ou seja, não reagir. Para Nakayama, a experiência nos treinamentos em academias ou em campeonatos de lutas não ajuda muito em confrontos reais diante de indivíduos dispostos a matar e muitas vezes sem nada a perder. Segundo ele, “um artista marcial tende a agir de forma puramente física e emocional, sem avaliar fatores de risco por meio de posturas táticas e psicológicas.”

Detalhes e cautela
Observar o comportamento do criminoso é fundamental para se tentar descobrir qual a real intenção dele e avaliar o nível de perigo que ele representa. “Só valeria a pena uma reação na hipótese de nossa vida estar realmente em risco” - afirma Nakayama. Ele lembra que bandidos experientes querem apenas obter o objeto de seu roubo, terminar a abordagem o mais breve possível e deixar a vítima sem chamar a atenção. Situações mais críticas ocorrem quando o marginal apresenta nervosismo, violência, sinais de estar sob o efeito de drogas e quando quer tirar a vítima de local público.

A negociação também é fundamental em estratégias de defesa pessoal, lembra o instrutor. Isso inclui, por exemplo, avisar o bandido sobre cada movimento que vamos fazer e deixá-lo sempre com a certeza de que ele é quem manda. Nunca se deve iniciar um processo de escala da violência, que ocorre quando pequenas atitudes, gestos ou troca de insultos desencadeiam um aumento gradual da agressividade. Outros fatores a serem considerados antes de qualquer tipo de atitude são o porte físico do criminoso, distâncias, se estamos acompanhados, se o agressor possui cúmplices e que tipo de arma ele utiliza.

Nakayama ressalta que as reações instintivas ao estresse de um enfrentamento real comprometem a eficácia de qualquer técnica de arte marcial, por mais eficaz que ela pareça durante os treinamentos ou campeonatos. “Nesses momentos, o aumento da freqüência cardíaca e as alterações no metabolismo hormonal interferem de forma direta em nossa capacidade de realização de movimentos mais elaborados, além de diminuir a amplitude da visão periférica”. Segundo ele, técnicas simples, movimentos rápidos e firmes são sempre mais seguros nessas condições, sem contar que indivíduos drogados têm maior tolerância à dor, portanto, tornam-se mais resistentes.

Perfil dos "malas"
De modo geral, o modo como os criminosos ou “malas” (uma das gírias dos policiais) abordam as pessoas apresentam características comuns:
- Dificilmente agem sozinhos;
- Os mais experientes querem apenas efetuar o roubo e partir rapidamente, sem chamar a atenção.
- Buscam por pessoas que julgam mais frágeis (mulheres e idosos);
- Aterrorizam a vítima com objetivo de paralizá-la e dominar a situação;
- Têm baixíssima tolerância a frustrações, tornando-se agressivos quando não alcançam seu objetivo, por exemplo, vítima com pouco dinheiro;
- Não suportam se sentir em desvantagem ou ameaçados, um uniforme ou faixa achados dentro da bolsa de alguém que pratique artes marciais é suficiente para deixá-los mais violentos;
- Se irritam quando desafiados ou inferiorizados, o que pode acontecer quando a vítima faz comentários a respeito do “caráter” ou “dignidade” do assaltante.

Legislação reconhece direito à defesa, mas condena excessos

Treinamento da PM inclui artes marciais com formato específico

 

 
Confira
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2 - Site da Secretaria de Estado da Segurança Pública de São Paulo - contém links para as divisões da Polícia, informações sobre serviços, delegacia eletrônica, dicas de segurança, estatísticas e conteúdo institucional.

Jan/2004

 
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