Escola particular oferece arte marcial como curso alternativo
O treino de artes marciais nas escolas de ensino
básico tornou-se tradicional em países do oriente
como China e Japão. No Brasil, algumas instituições
particulares de ensino adotam artes marciais como atividade extra
curricular ao custo de uma taxa adicional na mensalidade dos alunos.
O colégio Emilie de Vilenneuve na zona Sul
da capital paulista existe há 50 anos e há sete fez
uma reformulação pedagógica nas aulas de Educação
Física e passou a oferecer o treinamento de judô a
seus alunos.
Atualmente, dos 1200 estudantes matriculados na escola cerca de
95 participam dos treinamentos em turmas divididas por faixa etária.
Fernando Catalano Callaeja, professor responsável
pelas aulas de judô no Emilie, explica que o objetivo principal
é levar aos alunos a oportunidade de desenvolver uma modalidade
olímpica sem preocupação com resultados. Os
alunos até disputam campeonatos escolares e interclubes,
mas nunca há cobrança por títulos. Mais
do que ganhar campeonatos, ele afirma que a grande importância
do treinamento é contribuir para o desenvolvimento do caráter
do estudante.
Segundo Fernando, o aprendizado do judô torna
os alunos mais responsáveis, disciplinados e seguros. Além
disso, durante os treinamentos eles vivenciam situações
que desenvolvem a capacidade de se ajudar e aprender mutuamente.
Para o professor, o contato com a filosofia das artes marciais também
enriquece a formação educacional, pois, os alunos
trabalham conceitos como respeito, calma, observação
e vivem situações nas quais iniciativas agressivas
não são a melhor solução. A compreensão
de que um comportamento cheio de raiva pode levar a uma derrota
ajuda a tornar as crianças mais tolerantes - revela.
Fernando lembra que o processo de aprendizagem das
técnicas mostra às crianças o quanto elas são
capazes de evoluir. Ele conta que no início do treinamento
os alunos têm o professor como espelho e à medida que
aprendem cada vez mais, começam a se soltar, passam a se
observar, descobrem que são capazes de evoluir e de fazer
coisas que antes não conseguiam. Todas essas características
combinadas criam um ambiente pedagógico rico para que as
crianças e adolescentes se tornem mais confiantes, percam
a timidez e melhorem emocionalmente - afirma o professor.
Controle e confiança
A fonoaudióloga, psicopedagoga e psicomotricista Raquel Caruso
Whitaker Lopes, uma das coordenadoras do CAD - Centro de Aprendizagem
e Desenvolvimento - explica que o movimento representa uma atividade
fundamental para a formação do ser humano logo a partir
dos primeiros meses de vida. Essa fase inclui o processo de engatinhar,
aprender a andar e as primeiras iniciativas de exploração
do mundo, ainda sob os cuidados dos adultos. Segundo Raquel, a criança
começa a adquirir capacidade para a prática de atividades
físicas específicas aos três ou quatro anos,
o que pode ser estimulado, desde que seja de forma criteriosa e
compatível com as características dessa idade.
Raquel
conta que a criança, à medida que cresce, tende a
optar por atividades que mais a agradam e satisfazem. Para a psicopedagoga,
as artes marciais se destacam como alternativa apropriada por representar
um exercício capaz de harmonizar os movimentos e desenvolver
consciência corporal e coordenação motora. Além
disso, os códigos de conduta e a disciplina ajudam
a desenvolver autocontrole e autoconfiança, características
importantes para uma criança lidar de modo natural com conflitos
em seus relacionamentos, por exemplo, agir com maior tranqüilidade
diante de confrontos com professores e colegas - lembra Raquel.
Para Ela, escolas que oferecem aulas de artes marciais
em suas dependências ampliam as possibilidades dos pais incentivarem
seus filhos a praticar esse tipo de exercício em um ambiente
conhecido e confiável, sem contar aspectos práticos.
Nas grandes cidades, questões como segurança,
trânsito e tempo representam um obstáculo para que
pais se sintam estimulados a procurar por academias e a acompanhar
os filhos aos treinamentos - comenta.
Raquel salienta que professores de artes marciais
envolvidos em atividades com jovens devem agregar à formação
técnica conhecimentos de psicologia e comportamento dessa
faixa etária. Segundo ela, artes marciais podem ser uma ferramenta
importante na formação infantil, mas um desempenho
abaixo de expectativas em provas de graduação ou campeonatos
pode se transformar em uma situação extremamente complicada
para uma criança. Nessas ocasiões, os educadores precisam
compreender o que se passa na cabeça de crianças e
adolescentes para orientá-los e evitar que haja desestímulo
ou frustração, explica a psicopedagoga.
Fev/2004
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